7.1.09

A Última Vez

Esta é a última vez que lhe escrevo. Creio que não entenderás essas minhas palavras rudes e sonâmbulas, pois nenhum ser que caminhe por esse mundo consegue compreender o que sinto agora, a menos que tenha se deixado nortear ao menos uma vez pelos laços aleives do amor. Você pode me ouvir?

Quando você me deixou eu te esperei por noites, horas, segundos. Eu engoli e vomitei as certezas de que tudo estava perdido. Eu passei noites pasma, em claro, e nas tardes quentes feito um cadáver repleto de moscas. Eu sonhei contigo meu bem e você nem viu. No sonho você chegava como um anjo e beijava sedento a minha boca, depois tomava o meu corpo com toda a sua virilidade de macho e me fodia, até que o universo inteiro se explicasse para nós, e meu coração batia louco, disparado, transbordando até o topo. Mas uma voz familiar e tenebrosa ecoou no espaço,eu não pude de imediato compreender : você era eu , estava morto e teria sumido pra sempre num disco voador. E foi assim e por causa desse prelúdio estranho que te amei como uma lunática, psicótica, demente e infeliz. Eu te amei sozinha, sob os meus joelhos, no escuro do meu quarto e ninguém viu. Te amei certa de que te tomariam de mim e o remédio pro meu medo era a tua saliva. Sob os efeitos lisérgicos dela, eu me tornava exuberante, completa, magna, cantarolava sinfonias nas paisagens outonais dos meus delírios e neles caminhavamos lado a lado de mãos dadas. Sim meu anjo, eu podia ver no fundo dos teus olhos o cheiro do infinito e o brilho furta-cor de todas as estrelas e meu bem! Por mil demônios eu enxerguei a eternidade escorrendo gelada e cristalina bem na palma das minhas mãos. Teu sêmem era meu néctar e almíscara doce era o teu suor, porque tu entorpecias os meus sentidos todos e por alguma razão eu assim o queria...

Um dia uma chuva forte caiu e rapidamente se foi. Era uma chuva sem motivos e a voz veio novamente, misteriosa e fria me anunciar algo, dessa vez era o fim. O fim sem razões e sem porquês, simplesmente o fim. Um acorde tocou, eram as trombetas do céu ou os estribilhos do inferno, ainda hoje não sei... Eu senti o sol clareando meus olhos, a realidade explodiu esmagando o sonho. Alguém chorou e outro alguém ao mesmo tempo sorriu, e o sorriso não era o meu. Eu bebi da última gota do desejo e no fundo da taça eu vi 70 verdades, que por 70 dias me confundiram e escarneceram da minha alma perturbada, solta e delirante num abismo. Numa montanha eu vi você preso, infeliz, débil. Numa gruta eu te vi imundo, endemoniado assassino. Num carro roubado eu te vi ejaculando em cima das minhas lágrimas. Num beco escuro eu te vi em perigo e tinha uma ferida que nunca curava. E em todas as verdades eu queria ser seu arco-iris, sua fada madrinha e seu amor. E foi assim, tentando te entender que quando notei eu já tinha bebido da porção maligna do amor, a garrafa inteirinha e jazia entregue, cega, caminhando errante no escuro, certa de que já não era eu a dona da minha felicidade e do meu ar.

Vem me buscar, porra vem me buscar! Eu te esperei como quem jura promessas ao demônio e logo em seguida se ajoelha arrependida e chorosa aos pés de deus. Esperei a ti feito uma amante frívola que espera a anunciação da morte do seu soldado, certa de ter sido trocada por uma guerra qualquer. Eu te esperei como uma puta triste, um cão que uiva mil e uma noites clamando pela misericórdia do seu dono. Eu te esperei mumificada, frígida, seca, infeliz e embalsamada eternamente pelos condimentos peçonhentos da paixão. Eu fui a bruxa envenenada, agonizando selvagem pelas florestas, pedindo a ti ou a morte, a ti ou a morte! E foi caída no chão do meu quarto que eu enfim enxeguei uma das 70 verdades, a mais pura delas : Estavam os teus olhos tristes e cansados a me fitar, soletrando numa língua estranha que eu custei a entender “ eu não te amo mais”. E logo depois eu vi tuas pernas, essas pernas que eram minhas, entrelaçadas em outras pernas e no teu peito não havia pena ou dor e nem ódio! Quem dera eu ser digna ao menos do teu ódio! Quando enxerguei a última das verdades eu estive no inferno te arrastando pelos seus cabelos de anjo e quebrando garrafas nas fêmeas miseráveis que beijavam essa tua boca que tu juravas que era só minha. Eu te amei obsessivamente, com toda a fragilidade senil da minha alma de mulher, te amei sedenta e com os olhos vermelhos, sangrando e gritando certa de que o amor é triste e cruel. Eu quis te ver morto, humilhado e esquartejado em todos os postes das ruas da minha desilusão.

Eu tive febre, delirei e acordei chorando, meu bem e você nem ouviu. e no meu sonho você era um demo que saltou a minha janela e eu tava te esperando verde, quente, preparando para o meu corpo uma loção de folhas e os aromas pra ti. Eu era puro néctar de flor silvestre, rara e só tu podias tocar. Eu senti tua boca passeando no meu corpo e sua mão tocando o meu ventre, tu estavas úmido, latente, lindo e erguido. E você era meu menino e eu era sua menina. Presa nos arames do teu amor, vítima passiva que deseja ter o coração sangrando e eu queria o seu punhal cravado nele, o seu punhal e o de mais ninguém. E tive.

E hoje, meu amor, é com muita dor que arranco esse punhal que me cega e me atormenta e juro, pela minha alma e pelo meu sangue : acabou!. Agora que sinto que acordo de um delírio, me levanto fraca e consciente, eu escolho a vida, em vez desse amor que me cheira a morte. Acabou. Vá embora, meu bem.Foi a última vez.

Você pode me ouvir?

E no fim da ultima das verdades, você foi embora, fardado de mentiras, idêntico, simplório, como uma multidão de soldados caminhando vendado para uma indústria de corações vazios. E tu tinhas um sorriso safado e triste de quem não consegue saborear das coisas sublimes. E o teu mistério enfim eu consegui desvendar!

Desejo a ti, meu pobre anjo, que ao menos um dia, nem que seja num sonho, tu mergulhes profundamente nas águas límpidas e cristalinas do amor. E que sondes o espaço. Encontre todas as nuvens dentro de ti e sinta o coração bater vivo, louco e sanguíneo. Porque no fim das contas só quem ama é que possui o mundo. Você pode me ouvir?

Sei que não mais... Adeus!

Feliz Ano Nove






Ué gente, sem querer broxar com o ano novo de vocês, mas tá! o ano mudou e você mudou?
mudou o caralho! rs
Pois é.. festas e bebedeiras e rituais à parte, eu tenho cá comigo que ano novo acaba sendo como aquela música do pinquefloide

"Year after year,
Running over the same old ground.
What have you found?
The same old fears"

e tenho dito...
E que 2009 esteja repleto de mudanças e descobertas para todos nós, apesar dos velhos medos e do velho chão batido em que pisamos. Mas quem sabe com a entrada de júpiter no cosmo interlunático de saturno as coisas se resolvam para todos nós? E que todos possamos ter algo além de felicidade, amor, saúde, algo muito superior a isso: grana. Yeah, que possamos ter grana!
Ah porra, só pra variar deixa eu viver meu momento futilidade! rs

Que saudade das putas do beco¬¬. Sério! Esse ano eu vou comer todas elas. Essas wadeeas que somem!
*biquinho blase pra vocês*

fui-me



(nika)


24.12.08

Love will find a way



Antes de ler esse post clique aqui e o amor vai mostrar o caminho



Oi pessoas! :)
Hoje eu fiquei pensando sobre Jesus e sobre esse sentimento grandioso dá sentido à vida que é o amor. Não.. nada de amarguras hoje. São três horas e 16 minutos da matina e eu chorei. Chorei ao pensar no amor que Jesus dizia e no amor que meus quatro besouros de liverpool cantaram nessa linda canção que me lembra dos telhadinhos de londres.Me lembrei de um filme chamado "Uma lição de amor" que pra mim é o maior filme sobre amor já feito. Deviam exibi-lo nesses tempos de natal em vez daquelas coisas chatíssimas tipo "a arca de noé", "abraão e seu cajado" e tal. É que o natal deveria ser a festa de comemorar o amor, apenas isso.Alguém pode me explicar por que é que a gente se esquece da essência do natal?
Ah estou em casa e estou tão sozinha! Chorei diante do espelho ao lembrar que há tempos eu vinha tentando esconder o meu amor de tanta gente, inclusive dos meus pais. E amanhã é véspera de natal e eu não devia estar feliz só pra contrariar as regras. Eu devia estar com a cara fechada na mesa, dizendo profecias ruins a mim mesma e olhando pra rebeca a sorrir na janela, me mostrando que sou grande, maior do que o universo! Mas o amor é bonito porque te faz sentir pequeno e eterno em vez de grande e fugaz. O amor é o tipo de coisa que eterniza a gente e nos lembra que precisamos estar unidos pra respirar, contemplar o céu, aprender sobre a vida e para não enlouquecer de tristeza. Porque a felicidade simplesmente não existe se não puder ser compartilhada. A felicidade não existe sem amor e sem um natal que nos faça pensar na poeira que vai restando de todas as coisas. Sim, essa vida passa rápido como um espetáculo de circo. E eu é que não quero ser o palhaço triste...
Mas amanhã eu não vou mais chorar. Eu quero dar um beijo na minha mãe e dizer que eu a amo! Como eu pude ter me esquecido que essa existência se esvai rápido enquanto a gente fica lutando pra endurecer o coração e sair correndo, pra qualquer lugar com as pernas fortes e a mente cheia de idéias.Como pude ter esquecido que nessa vida todas as coisas vão passar, e eu continuo aqui, deitada, lutando contra meus demônios em vez de mergulhar no azul profundo de um abraço. Hoje eu quis ser grande, singela. uma princesa de alma! Chorei de felicidade de ter dado um tiro em rebeca e ter me permitido a ser sublime, digna de amor. Conclui que amor não é uma coisa da qual a gente deve tentar fugir nem esconder. O amor é um tesouro precioso, um arco-íris que faz a gente ver que a chuva passou. E por mais que isso soe um post de" espírito natalino e auto-ajuda água com açúcar de almanaque" eu estou feliz, lembrando do sorriso dos meus amigos, do olhar do meu pai e do cheiro da minha mãe. Eu poderia sumir, desaparecer e me tornar uma estrela no céu. Mas só amanhã na noite de natal.É que eu quero imaginar que nem que seja por um dia o mundo se encheu de paz e todos, ricos , pobres, negros, brancos, crianças, idosos, mulçumanos, católicos, todos se curvaram diante do amor. É que no presépio há uma luz que intriga as pessoas a mais de 2000 anos... E para mim o natal devia se chamar "amor", simplesmente isso.

Esse post repetiu 17 vezes a palavra "amor"


All we need is love, queridos!

e que todos se rendam aos encantos do natal!

(nika)

20.12.08

" Hoje eu tô sozinha...


... e não aceito conselhos!
Vou pintar minhas unhas e meu cabelo de vermelho! "


Blog = válvula de escape!
Vazio imenso, sentimento nostálgico!
Quero ser criança pra me alegrar ao ver um balão!
Quero pular fases e viver tão intensamente o futuro!
Contraditório, reconheço!


Alguém me ensina como saber viver?


by POPS

17.12.08

Saudades



Buenos meus queridos, não é difícil não notar que essas férias ando mais amarga, calada e todas essas coisas que uma pessoa não deve ser em tempos de natal.
Deve ser saudades do beco e das maravilhosas que me acolheram em belo horizonte ( pedro, beto, lucas e companhia), das pessoas incríveis que conheci no meu primeiro período completado em uma faculdade, depois de tantos iniciados. (ufa!)
Poderia citar tantos nomes de estrelas que permeiam minha noite acinzentada...

Ah e o meu beco! Hoje fiz um copo de vódega com sei lá... kissuco pra mim mesma acendi uma cigarrilha e fiquei pensando que aquele beco é mais do que um beco escuro ofuscado pelas obrigações acadêmicas e dramas da juventude. O beco é um observatório das estrelas, um lugar pra se contemplar o céu e o mundo

ah! eu luto tanto pra diluir no fel da cachaça essa minha alma água com açúcar, mas não há como esconder:

eu amo vocês, porra!

Abraços saudosos de uma puta/idosa/bomba/trava apaixonada

(nika)

Apenas Um Conto de Feliz Natal


O nome dela era Rebeca mas todos a conheciam como baby satanás. Tinha o rostinho redondo e um sorriso infantil que enganava a todos que a questionavam aquelas singularidades rotineiras: como vai a escola, meu bem? Ela ria, como uma bruxa ancestral e parecia entender todos os mistérios ocultos do universo. Vivia sentada nos cantos, debochando internamente de todas as coisas com um olharzinho irrequieto e sarcástico. Parecia uma vilã,sempre na cena final do crime, todo mundo a cercando e a condenando. Apontavam-lhe os dedos e faziam acusações pavorosas, e ela sabia que era só uma tentativa de corromper o quartzo azul escuro do seu espírito, sua liberdade excessiva. Ela entendia que tudo era desejo secreto e desesperado dos outros que não conseguem ser anômalos. Ela não! Tinha decidido por si só a ser uma aberração, a mais insana de todas as garotas.
Boa tarde, Rebeca! Ela parecia ter estudado à fundo em seus devaneios sobre a hipocrisia das pessoas. e ninguém mais sabia se ela era menino ou menina se tinha amigos, namorado, ideais, se mentia ou se dizia a verdade porque pra ela nada disso importava. Quando a penumbra dava o ar da graça, só se ouvia os passos na escada e ela saia noite à fora, desaparecia qual fumaça na escuridão.Todos se punham inertes, pais, tios, conhecidos, profissionais - todos eram impotentes diante do pequeno anjo caído, cravando as unhas negras em cima da sua própria desgraça. Todos discutiam, tentando achar soluções e secretamente, gozavam e a admiravam. Os velhos invejavam a sua juventude e os fracos admiravam a sua coragem, mas andavam por aí metendo os bedelhos com suas línguas ferinas em buracos de cupins. Os castos e beatos proclamavam: essa menina é o demônio! e ela gostava e sorria. Porque na verdade Rebeca sempre tinha achado o mal mais interessante, verdadeiro e muito mais humano poder assumir a sua imundice em vez de viver por aí, pintada com lixo escatológico em forma de anjo de gesso,sorrindo e se quebrando o tempo inteiro. Rebeca entendia sobre a passagem do tempo e o sentia escorrendo, gota a gota, como uma hemorragia inevitável de um corpo abandonado em um canto qualquer. E era assim que ela se sentia, abandonada pelo mundo e por deus em um ano de dois mil e tantos e toda aquela merda de tecnologia, ciência, Vênus, Júpiter, e nada nem ninguém conseguia diminuir um centímetro da profundidade da sua dor. Poucos anos ela tinha e pra ser sincera, ela tinha quase acabado de nascer e estava imunda, triste, e cheia de cicatrizes. Andava pelos becos do mundo com seus sapatos batizados pela lama da estrada, suas moedas de zinco frio, quase cortante, inúteis e mendigados trocados que produziam sinfonias estridentes no abismo do seu espírito sombrio. Não era difícil notar que dentro daquela alma continha o livro de um passado cheio de perguntas e poucas respostas. E o amor, Rebeca? Os espectadores perguntavam amedrontados, e ela respondia: Oh o amor? O amor é uma mentira, como tanta coisa nesse mundo. O destino estava escrito no presépio, a cruz esperava o deus menino antes mesmo que ele nascesse.

Feliz Natal Rebeca ! Natal é o cacete! Invenção da sociedade capitalista e ela sabia. O mundo ia continuar o mesmo, ela ouvia os cortes e os gritos de dor do mundo inteiro. Rebeca tinha o cabelo azul, fumava e nunca conseguia relaxar, parecia uma bruxa antiga, a mestra de todas elas. E foi assim, ela tinha nascido de um delírio e sabia que de um delírio ia sucumbir. Tomou três tiros secretos no jardim : CA-LA-TE , fedia a pólvora, ferrugem e inocência podre aquela hora de sua morte.O cabelo azulado,os olhos fitando o nada, as mãos tentando se apoiar trêmulas a alguma ponta imaculada do passado, da infância que acabava de se perder. Era nova e infeliz aquela sensação de ter se assumido fraca, humana, sem noite de natal que a reificasse. No momento em que rebeca fechava os olhos e a sua existência sumia, ouviam-se os sinos natalícios e o sangue azul denso se esvaia, por todos os lados “Já nasceu o deus menino para o nosso bem” E a heroína, levou sobre si a culpa em vez do castigo, desapareceu, sem deixar rastros.Agora Rebeca é um silêncio que pulsa, sufocado no íntimo, estranho...

Muito bem, meus caros, a rebelde rebeca se foi e agora? O mundo continua se recombinando com as mesmas tralhas de misérias e mistérios. Dizem que no natal se sente com maior intensidade a fragrância do amor apaziguando os corações, o bem vence o mal e o mundo permanece igual. Pobrezinhos de nós que nascemos em belém e continuamos eternamente deitados em nossas manjedouras. E o que Rebeca se perguntava ninguém soube responder e demonstrar na prática vil do cotidiano, que nada tem a ver com as festas e seus mitos. Rebeca só queria entender as coisas que realmente importam:

O que é o bem, o que é o mal?

O amor muda mesmo todas as coisas?

Onde anda Deus?


Ninguém sabe... Feliz natal!


(A todos que ainda procuram respostas em vez de velhos caminhos)



(by nikss)

13.12.08

Sobre masoquismo


Cutucar o passado é inevitável.

by Polly

7.12.08

Pra chegar até aqui...


É hoje...
Um ano de estudos, de dúvidas, dedicação se resumirão numa prova!

Aquela que tanto temi!

O que for pra ser, será!

E a minha felicidade de fazer o que eu mais sinto prazer
depende disso!



E que venha 2009, começando com uma prova de segunda etapa e, um mês depois, um curso fantás
tico com muitas cores, tecidos,roupas, desenhos e satisfação!


by POPS

5.12.08

A estrada não era tão cariada assim...







Finalmente eu posso postar aqui tranquila, sem ter que contar o tempo e sem me preocupar que ainda falta aquele trabalho para fazer ou aquela prova para estudar.Voltando do meu último dia de aula do ano - que foi ontem e eu enrolei pra resolver postar - e olhando pela janela do branquinho amigo que me poupa longas caminhadas, pensei sobre o que escreveria aqui, no meu primeiro dia das minhas merecidíssimas férias (ok, agora já é o segundo dia).

E eis que sentada no banco do ônibus, algumas lágrimas sorridentes começaram a cair. Tomei consciência de que passei quase um ano inteiro aqui. Longe da família, mas criei uma nova família e longe dos amigos, mas construí novas amizades. Encontrei até um amor, que eu não posso chamar de novo, porque eu acho que é o primeiro.

Foram festas, uma mudança de casa no meio do ano, dezenas de caras novas preenchendo meus dias, provas fáceis, provas malvadas, trabalhos que eu fiz e que foram feitos pra mim, frituras todos os dias, várias reclamações sobre dinheiro, momentos-Macabéa e até momentos da chatinha Poliana...

O balanço de tudo isso é bom! Muito bom! O ano de 2008 foi fantástico! Principalmente se for considerado que meu último Revéillon foi passado dentro de um carro, encolhida e deitada no banco de trás e chorando porque a segunda etapa do vestibular estava chegando e eu achei que não ia passar, que eu era uma fracassada e principalmente porque a minha vida naquela época, acreditem, estava muito ruim de verdade. Quando a contagem regressiva mental começou, não pude deixar de pensar: "em que merda de ano eu tô entrando, será que eu não posso ficar aqui não? Será que eu posso ficar em 2007, por favor?"

E nesse ano em que eu entrei com dois pés esquerdos, que foi 2008, o que eu tive foi a oportunidade de viver uma vida diferente, a vida que eu queria e não a que queriam pra mim. Alguns sonhos mirabolantes ainda estão por se realizar, mas quem disse que sonhos não são bons? Eles têm asas, enquanto a realidade só tem pernas. Às vezes, a realidade dificulta e tem uma perna só. E o mais legal é que a gente pode ser sacana e rir dela.

Eu ri! E por isso estou aqui em Belo Horizonte, vivendo um sonho que eu julgava impossível.

by Polly

2.12.08

Como surgiu a paixão




No início, quando a terra ainda era habitada por iaras, curumins, cocos mágicos e feitiços que imploravam para desabrolharem, andava por aí uma indiazinha chamada Taci. Ninguém sabe ao certo como ela aparecera ao mundo, se ela era a filha feia e mais moça do Vento ou se ela simplesmente tinha brotado da lama, gestada dentro de algum lodo purulento e permanecido por aí, a vagar pelos prados escuros contemplando a valsa interminável do Sol pela terra.Os Maués contam que não havia animais nessa época, apenas insetos e grossas baratas que serviam de alimento para os seres. Os seres por sua vez, rastejavam e quando andavam, possuíam os cotovelos invertidos e por isso jamais podiam se abraçar. Apenas os curumins existiam do mesmo modo como são hoje, inocentes e cheios de perguntas, brincando pelos lençóis d’água da mãe terra, fazendo redemoinhos e fecundando tudo com o pólen das flores. O mundo tinha cheiro de fertilidade e no meio deste universo pulcro estava Taci, troncha, curvada, sozinha, acinzentada e pequena.
Tudo que se sabe é que Taci era medíocre e triste. Prosseguia vivendo como uma praga que subsistisse sem razão, sugando seiva de qualquer tronco sonolento, dormindo em qualquer gramínea muda, aguardando que morte saísse escura das profundezas do rio e a abraçasse, porque Taci simplesmente não fazia sentido e nem o queria; era como uma mosquinha pequena, minúscula e ninguém a notava. Jamais um curumim teria pousado os olhos sobre ela ou jamais teria ela recebido em seu olhinhos oblíquos um feixe de luz qualquer.
Diz a lenda que um dia Taci estava vagando, por acaso à beira de um rio quando viu, pela primeira vez o Majestoso sol. Ah aquela luz fumegante explodindo no céu, ardendo vivamente sobre todas as coisas era a tudo de mais lindo que Taci contemplara em toda a sua vida. Naquele dia Taci ficou olhando o sol até que seus raios se enchessem de uma luz vermelha e lilás e as nuvens se desfizessem uma a uma no baile do céu e o mundo, após aquele espetáculo magistral, voltasse a ser uma completa escuridão.
Assim, no outro dia Taci sabendo onde o sol se escondera, voltou à beira do rio para contemplá-lo e dar sentido à sua existência inacabada. De coração ardente e enamorado, começou a subir cada vez mais os picos e morros, com seu corpinho desmazelado e atrofiado ela sentia a única vontade no peito de contemplar mais de perto aquele astro que iluminara a sua vida. O Sol, sozinho que era, passou a notar aquela indiazinha solitária que o observava em todos os espetáculos, desde a hora impetuosa em que nascia até quando ia descansar.
Um dia, a morte saiu tenebrosa do fundo do rio para passear e arrebatar as criaturas desprovidas de sentido que vagavam pela terra. Naquele dia chovia e o sol se escondera. Taci tinha voltado a sua mediocridade e protegia-se numa caverna quando a morte a encontrou e a esmagou para sempre, arrastando a sua existência até um canto desconhecido. No outro dia, quando o sol tornou a aparecer, procurou por Taci e ficou tão triste que chorou uma chuva de raios quentes em cima do corpo imóvel da indiazinha morta. Depois, abraçou-a com seus braços em chamas e amou-a de tal forma que ela cresceu e encheu-se de luz. No entanto, o sol precisou deixar Taci em algum lugar do espaço para continuar a sua dança mestral por entre as nuvens, circulando estatelado e apaixonado ao redor da terra para ver a sua amada e presenteá-la com raios de luz. De tanto amor, o corpo acinzentado de Taci cresceu e tornou-se redondo, como um diamante raro e magnífico preso no céu.
Os seres ao contemplarem tanto amor entre o sol louco e apaixonado e o boião prateado que aparecia iluminando a escuridão, começaram a sentir vontade de experimentar do amor mas não podiam se abraçar, posto que seus cotovelos eram invertidos.
E toda noite quando o sol já tinha terminado a sua dança ele se punha a chorar de saudade de sua amada, fazendo com que pingos luminosos e brilhantes aparecessem no céu e caíssem todos ao redor de Taci, enfeitando-a com estrelas fulgurantes.
Só assim, observando a força da paixão é que as criaturas se esforçaram para ficarem mais próximas uma das outras e tentaram se entender e se abraçar. De toda aquela angústia de não conseguirem é que surgiu a paixão, o desejo forte e incompreendido do abraço que sempre piora à noite, sob a luz da lua.
Desde então enquanto existir no céu uma noite coberta de estrelas e um sol enamorado, cumprindo obstinadamente a sua dança, sempre haverá no mundo, sedento por um abraço, um coração apaixonado a contemplar a lua...


(Conto dedicado ao meu saudoso pai, que me ensinou a crer nas lendas)

By Nika