26.5.09
"Compro, tenho, logo existo."
À época, Marx, um dos principais pensadores representantes do século XIX, defendia que o produto do trabalho deve, antes de tudo, responder a algumas necessidades humanas, ou seja, ser útil. Marx chamava-o de valor de uso.
Contrária a esta concepção, Adam Smith, defendia a teoria de que as mercadorias não apenas possuem seu valor de uso, mas também um valor de troca, o qual se assenta na importância atribuída a elas.
Na sociedade contemporânea, a qual estamos inseridos, parece haver um predomínio do segundo valor.
“Compro, logo existo”. Esta parece ser a condição essencial para a lei da sobrevivência. Usar uma calça de marca ou o tênis da moda virou sinônimo de identidade pessoal. O sujeito sente-se engrandecido, inserido na sociedade, fazendo parte de um mundo, onde as pessoas não querem apenas o necessário. Gostam de ostentar o supérfluo.
A publicidade veio ajudar o supérfluo a se impor como necessário. Fala-se de uma obsolescência planejada, segundo a qual, o processo de se tornar obsoleto de um produto é planejado desde a sua concepção, gerando no consumidor, a necessidade de se adquirir um novo produto.
Um produto cria a ilusória e errônea sensação de que, graças a ele, temos mais valor aos olhos alheios. A relação pessoa-mercadoria está invertida; mercadoria-pessoa é o que prevalece agora.
Estamos sendo monitorados pela lei da lógica do consumo. Não mais importa o Ser e sim o Ter. Ter um BMW, uma camisa ou um relógio de marca, é o que nos imprimem valor.
É sob tal condição, que Frei Betto, frade dominicano considerado um dos principais expoentes da Teologia da Libertação, critica a “religião do consumo”. Segundo o sacerdote, o consumismo é a doença da baixa auto-estima, e o pecado original dessa nova “religião” é que, é egoísta; não faz da vida um dom, mas posse.
A tese não carece de lógica. Apenas é uma questão de saber discernir o útil do não-útil e o necessário do não-necessário.
By Misha
12.5.09
Misha
6.5.09
Lua bonita

15.4.09
Óculos
Tinha um cordão marrom e já parecia um artefato vivo, cheio de escamas que contavam minuciosas estórias. Movia-se na esfera atômica sob um céu de nuvens, látex, plástico, cobre ou qualquer que fosse aquela matéria estranha. Era triste, parecia póstumo, plural, aquele objeto morno, esquecido: óculos.
Contava histórias...Tantas histórias suportadas, sorrisos de cílios, dança de sobrancelhas, músculos faciais atentos, suspiros de estagnação e tédio, sol vigorante, e chuva fina de cidade grande, seres móveis, pensantes, bocas sonâmbulas, ósculos apaixonados. Ah, tudo estava contido ali, naqueles óculos morenos de ferrugem.
Objeto vivo, pensante (como saberemos?). Os óculos não falam, são nobres porque sabem guardar segredos, passado, presente e lentes que verão o futuro. Guardavam o mundo refletido em seus espelhos, eram tristes e atados a um cordão de látex coagulado. O cordão era vagabundo, mas os óculos eram sábios... Pareciam árvores do cerrado, eram óculos morenos, para olhos morenos e doíam.
Que mistério guardariam as lentes daqueles óculos, noivos de tantos globos oculares, plasmas e íris pusilânimes que acarinhavam as almas! Córneas úmidas, fluviais, plúmbeas, frágeis de sensações. Os olhos se fecham e as lentes continuam a tudo observar. Lentes e olhos são oráculos, bem sabem que o ser que vive gosta mesmo é da luz parindo no escuro de tudo (para aclarar o breu das almas?). E como era forte o segredo da luz!
Aqueles óculos sabiam as respostas. Aquilo que somos humanos demais para entendermos eles sabiam mudos. As lentes ouviram o destino infeliz de uma Eva inútil, e viram as rodas que esmagaram o verme-estrela em sua hora. Os óculos teriam visto vênus, serpentes, formigas, poros grossos, poeiras, poetas, construções cinzentas, sóis, céus e estrelas. Teriam guiado cavaleiros e suas malas, guerras e suas ideologias furadas, cirandas, faces da roleta viva onde giram mil caras. Aqueles óculos ouviram atentos na taverna, os risos e promessas das bruxas bêbadas e o caderno marrom, apoiado no cimento frio, as lentes conspiraram sobre amor perdido (ou amor achado?) e depois vislumbram taciturnos o mais maldito dos poetas morrendo por tédio da vida, ou por loucura, e a flor de Liz com seu cigarro que queimou para sempre nos olhos que se fecharam para a luz... e depois claricearam todas as coisas.
Os óculos viram Dean e Sal aflitas, embucetadas no pátio dos vagabundos a se perguntarem sobre o passado de uns óculos achados (ou perdidos?)
...e viram a dor líquida da menina que não sabia chorar de alegria...
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À Jana.
31.3.09
Apenas Mais Um Causo do Sertão
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E naquela noite Dona Marinha se recordou e contou todos esses casos na sala, depois da janta.Veio com isso na cabeça no caminho da missa de quaresma, andando a passos largos com suas pernocas gordas pela praça da igreja.Todo mundo cumprimentava e queria saber como andava o povo da cidade. Ela contava vantagem que estava feliz demais com a visita dos netos,mas a verdade é que estava doida pra semana santa passar logo. Veio rezando o terço, rodando as bolotas de cera e pensando num plano diabólico; Queria fazer medo. Era de levadice de velha mesmo! Lembrava daquelas noites em que dormia suando gelo debaixo da coberta com os irmãos por causa dos casos de Seu tinoco e Comadre Zefrina. Onde já se viu! essas moças de cidade não sabem nem matar frango! Quando vêem os olhinhos pidões agonizar já correm. Até demora mais de morrer o bichinho.,fica agonizando por causa do coração piedoso das moças; Piedoso nada! Lamuriava em pensamentos a Dona Marina enquanto limpava a cloaca defunta e fria do frango recém esguelado, frescura mesmo! Esse povo de cidade quer achar tudo pronto.
Dona Marinha estava inquieta e tinha um nó nas tripas, andava da cozinha para a sala, atravessava o corredor e sentia uma estranheza na sua própria casa. Enxergava os rapazes feito bonecas de porcelana sentadinhas no sofá com seus olhos inertes. Não brilhavam os olhos quando viam terra, nem vaca parida, nem bezerro mamando, nem pé de fruta crescendo nem nada. Gostavam mesmo era do tal do computador. O que será que haveria de ter de tão bom naquela caixinha brilhante e barulhenta? Coisa boa é que não era! Rapaz bacana de casar era mesmo o Bizneto de Seu Canote. Tinha ido estudar veterinária na cidade e andava com chapelão que capengava, lembrava até o finado Tinheiro quando era vivo. Bonito e viçoso que só! Ela disse às netas, vocês precisam de conhecer o Luizinho! Mas que nada. Ninguém dava ouvidos à velha. Ela se sentia uma relíquia daqueles matos, guardando estórias e passado que nunca se iam. Desde que Tinheiro havia batido as botas ela tinha se tornado sozinha, naquela casa, falando com visinhas e com os telhados, chorando de saudades dos tempos antigos, namoro de mão, vestido de renda, respeito com os mais velhos, cortejo e benção. Era tomada de um dor no peito quando pensava que aquilo tudo, o barulho bom dos bichos tilintrando na noite havia mesmo passado e ela... Ah ela era uma velha e todos aguardavam para que morresse já que ela não cabia no mais nesse mundo cheio de metais e coisas que se resolvem sozinhas . Dona marina estava triste por dentro e não sabia parar ou dizer, com aquela a casa pinhada de visitas, o jeito mesmo era continuar ralando a mandioca com a força dos braços, suando no baforão do fogão à lenha, porque a noite chega e há de se comer!
Após o jantar todos se aquietaram na sala, foi quando Dona Marinha começou então a contar aquele causo, vagarosamente, detalhe por detalhe, até disse que mostrava a casa de comadre Zefrina. Todos ouviram embasbacados e alguém até tentou fazer piadinhas a respeito. Mas as noites de quaresma e lua cheia naquelas bandas não falhavam. Deu a hora de dormir e moçoilada toda já caçou jeito de dividir cama, os rapazes já não queriam ir ao banheiro sozinhos. O tempo inteiro alguém se estremecia pensando ter ouvido barulho de mula manca, canto de gia na nascente. E todos, por uma noite que fosse, mergulharam no sertão que não saia nunca de Dona Marinha.
E naquela noite Dona Marinha dormiu profunda e serena, com a sensação de dever cumprido. Sonhou com o canto dos matos, sonhou com as sereias velhas dos rios, segurou os cabelos cinzas de comadre Zefrina, viu os anjos dançando todos nuinhos dentro das núvens. Ouviu o barulho do cachorrinho pintado que alegrava a sua infância, deu-lhe as mãos e atravessou o rio, as florestas, e os campos de algodão do cerrado. Saltitou por entre os verdes matagais que perfumavam as noites reluzidas de cristais que a enfeitavam de saudades . Depois sentiu o corpo molhando debaixo do orvalho sereno que devia ser as lágrimas da virgem Maria e estava tão feliz, que uma escuridão a invadiu por completo.
E naquela noite em que todos provaram dos mistérios do passado de dona marinha, é que ela suspirou. e nunca mais acordou
e enfim viveu para sempre nas noites do sertão...
-Para Dona Marilda, a contadora de causos!
(nika, sertaneja, louca e beat ;*)
25.3.09
Eros, dores e Isadorias

Ela chegou pisando a pés descalços a camursa anil macia, tinha os cabelos ruivos soltos num maleixo sensual raro, os lábios especialmente róseos, entreabertos e o corpo nu.A casa era estranha, silenciosa e desconhecida. Como eles teriam ido parar ali? Tudo era vago e não objetivo, como num sonho. Se era tarde, ou noite, eles não sabiam porque as janelas estavam cerradas. Ela era setentrional ou boreal ele não sabia, porque naqueles dias nada mais fazia sentido a não ser a vontade. Antes tudo era verborragia, raciocinio, mentira e palavreado, e agora que estavam nus, todos esses acessórios já não se recombinavam a fim de produzierem nenhum tipo de ordem lexical.
Ele a fitava de longe, em sua nudez pálida e já não procurava entendê-la. porque a verdade dela era uma asa de borboleta furta-cor, mudando a cada segundo. Ela por sua vez, já não tentava satisfazê-lo porque nos olhos dele havia uma sombra, que se aconchegava mais facilmente ao palácio da angústia. Havia naquele homem um prazer na insatisfação, um gozo em ser movido a dúvidas, e aquela mulher era puro mistério de bruxas, fantásmas, mares, ventanias, entidades e terreiros. Eles se imantavam num tropismo louco pelo sombrio, pelas coisas tristes e ocultas. e assim, nus, é que eles se sabiam por completo.
Ele engoliu-a com os olhos algumas vezes, tinha um cigarro na mão direita e um esquerdo pensamento: maldita! Ela se gracejava nua, se movia, e quase dançava em distraídos apelos femininos. Ele fitava ereto e praguejava numa prece aos avessos, num ritual de excitação a que ele se submetia. Maldita! Ela percebia tudo por detrás das pupilas cautas e sorria, movendo alguns poucos músculos da boca farta , invocava-o com os cílios e o possuia com seu olhar bruxo, e como era bruxo, bacante e malicioso e puro, sem querer. Porque eles sabiam bem que não há nada tão puro quanto um desejo selvagem cilindrando-se como uma gota de orvalho, aviltando-se perene, segundo após segundo, milimetricamente, para enfim explodir no ar.
Ele pousou os dedos naquela boca úmida de pintanga, e o seu sorriso mudava-se como um mosaico sensual de escamas de serpente. Ela molhou-lhe o dedo médio na saliva quente e fitava-lhe estranhamente os olhos enquanto cobria com a língua de rio, o dedo de terra e ferrugem daquele homem. Maldita! ele murmurava por dentro enquanto era tomado por uma fúria de macho que lhe agitava os músculos todos. Ele tomou-a forte pelos cabelos e engoliu os seus seios cáusticos no chão camúrseo do quarto frio. Ela se atrelava e se esforçava, mas deixava escapar uns soluços de de gozo contrito. E então ele possuiu aquela mulher que era toda uma ventania vindo de alguma núvem impetuosa, e ela conduzia atrevida, cavalgando a floresta mística e úmida dos corpos, oferecendo a sua noite triste de mulher para ser penetrada com força, por um cavaleiro tétrico em sua armadura de desejo.
A tempestade prosseguiu aos raios, relâmpagos e ventos impetuosos e sórdidos, atiçando a cavalaria dos espíritos, arrebatando tudo o que está passível de fazer sentido num ciclone não arrebatável, naquele quarto escuro, esconderijo das mentes sombrias e eles, suados e cúmplices e passivos do crime dos que se amam, gozaram com a cor sanguínea de todos os túmulos nos olhos
e depois que a claridade fúnebre do prazer invadiu o quarto eles estavam vivos de novo... homem e mulher.
(para Isa- que bem entende de amor, porque o amor é não entender)
16.3.09
Mas ainda é março

Eu sei, ainda é março!
Águas que rolam e bossas novas à parte, hoje minha homenagem é ao fogo de abril. Aliás, acho o outono a estação mais linda, romântica e vibrante. Outono é uma estação para quem ama um banco no meio do nada e um pouco de melancolia pra fazer a gente gostar dos fragmentos de lembranças. E é mágico como tudo acontece quando o verão se vai e o peito fica quieto.. O que será de nós em abril?
Um soneto e um cigarro, um casal de velhinhos sorri um sorriso doce e decente para quem ainda tem muito o que descobrir, e o vento, malandro e bonito como é, sai empurrando as folhas, recolhendo os planos secos e fatigados e o amarelo sol que se põe a incinerar em chama ardente tudo o que já devia ter passado até que o inverno chegue em dó maior e depois também adormeça no planeta que gira em torno de um astro amarelo e outonal. E na vida, tudo é mesmo circular, as estações, as paixões, os desejos. Tudo volta exatamente para os braços de onde nasceu. até as folhas um dia adormecem de novo aconchegadas ao seio misterioso da natureza.
Mas no peito uma pergunta ainda suspirava baixinho: o que será de nós em abril?
Na primavera é que as flores se abrem e fica um perfume e uma saudade. Pura saudade de abril. Na minha vida sempre foi assim, esse mês cerceando o limite onde nasce alguma nova e avassaladora paixão.
Mas a coisa toda começou antes mesmo da aurora de ontem, quando eu tentava dormir com essa minha mente que mais parece uma indústria de pensamentos sofisticados, vendidos a preço barato. O sol já queria se levantar e eu não conseguia sequer fechar os olhos! Não tinha porquês aquilo tudo, meu coração palpitava e as pupilas irrequietas rastejavam por um pouco de luz ou beleza em plena madrugada. E eu acabei sonhando sonhos de outros amantes, estive em outros corpos sentindo estranhos perfumes. Seriam essas as grutas outonais dos sonhos?
Não sei... sei que ontem eu quis ser mulher de novo, ser vermelha nos olhos, na boca, quis ser segurada firme por grossas mãos. Onde moram essas mãos além da luz rubra que penetra a paisagem amarela dos meus sonhos?
Ah como eu queria ser sensível de novo, ser pequena, ser bailarina e ser amada...
Por isso hoje fica aqui hoje um poema, um tango e um sopro do vento e neles o desejo de uma grande paixão. quem sabe os anjos dessa vez sintam piedade e recolham essa prece. Quem sabe eles enfim esqueçam meus pecados, esqueçam que amei demais sem ter musa nem amado!
quem sabe tudo mude no fogo transparente que dá na gente
no mês de abril!
acho digno!
(niks)
abril
Oh amor de noite castelhana
Do teu corpo no meu seio
Teus olhos no meu beijo
E os pés rasgando circunspectos
O chão lânguido de Habanera
E no céu a lua de penosos acasos
Gemia compassos de dois por quatro
E já cavalgavam mil cavalos
No íntimo de quem me queira
As mãos pousando a boca branda
E a boca mordendo árduos os receios
E os receios engolindo líquidos olhos
E os olhos sorvendo pérfidos desejos
E seguiu-se o baile do coração assassino
Piruetando sob o acaso desatino
Que já na amargura se reclina
Mas na candura se devaneia
Na lua espanhola a violeteira fina
Girou as mãos delgadas do fado
Recuou sôfrega , inclinou-se trépida
Se lançou cega e pouco mais partiu
Mas quando no peito se instalou o alvoroço
As mãos de março ganharam o meu pescoço
Meu regaço mole alcançou teu rosto
E o compasso de novo se abril
27.2.09
Tá sumido...

é.. tou sumido!
rá, como sempre depois dessas postagens caóticas, espremidas do ventre, coloco aqui um videozito para despistar a loucura! Essa vai para todas as travas que já sonharam em ser a bela Sarita Montiel com sua cigarrilha, borrifando nuvens com elegância e cantando com voz divina. Tou me sentindo aquelas radialistas noturnas agora haha meldels!
Buenas, queria aproveitar e parabenizar a pops pela vitória no vestibular da ufmg! Todos sabíamos que ela conseguiria e todas vibramos juntas! Eu particularmente jamais me esquecerei daquela cena da loira chorando no sofá, lamentando que não passaria. Naquele momento eu sabia que ia dar certo. E que lindo era o modo como ela chorava! Chorava como os vitoriosos que ainda não sabem. né loira?
Vou tocar no assunto (como era de se esperar da minha parte)
O sofá amarelo só mudou de lugar, mas não deixa de ser eterno. É bem assim, como o cruzeiro do sul! Esses dias eu descobri que o Brasil é o único país que se preocupa com a posição exata do cruzeiro do sul! Uau, cara! somos mesmo um país especial! Só um país de loucos hedonistas é capaz de parar uma semana em nome do carnaval e ficar perseguindo uma constelação pelo céu!
Sobre o beco, há um silêncio dolorido e ainda há uma ferida que não cala, mas ferida há em tudo que vale a pena! Também, quem disse que a estrada não haveria de ser cariada? Vou sentir falta de acordar e ter vocês, vou sentir falta de mil coisas que eu poderia usar mil páginas para citá-las, mas acontece que na vida as coisas boas têm mesmo de ser efêmeras, acho que aprendi isso. E além do mais, sabemos que não é nenhum fim, porra, que merda de fim. Odeio essa palavra maldita de 3 letras! As coisas mudaram de lugar, tudo muda de lugar para nascer de novo ,e nascer dói, minha avó já dizia.. Tudo que nasce se espreme e depois grita. Tudo mudou menos o que ficou igual!
enfim, a todos que vêm ao nosso cantinho, que bom revê-los, queridos e queridas do blog. Continuem se achegando no nosso sofá mítico, vamos hablar! Eu queria dizer cinicamente que amo vocês, adoro quando as coisas são ditas cinicamente, elas nos instigam a continuar! Estou quase crente de que os verdadeiros amores são os cínicos!
besitos amargurados, vacas!
fui ali ;*
O homem sem rosto
"
A menina viu de sobressalto no livro de gravuras um homem sem rosto na estação de trem. E naquele momento ela entendeu como funcionava toda a parafalhoca do universo:
E foi assim que ela aprendeu a amar as pessoas como uma desesperada, crente que os desesperados é que eram felizes, certa de que tudo que é vivo vai. Até o que não o é, as pedras se partem, as nuvens se desfazem qual renda de vestido de noiva, as noivas viram retratos na parede e depois viram histórias que alguém conta, e esse alguém também parte, e as pedras se repartem novamente e viram vulcões derretendo tudo ao redor, pergunte a alguém que viu da estrada, pergunte porra, as histórias não morrem. O amor não morre, as casas vão ao chão, os grilos cantam nos escombros, as folhas sorriem para a chuva. Você vê? Conta pra mim que eu também te conto! Abraça me, não deixa isso passar, não vê como os relógios também se liquefazem? Quisera eu bebê-los em uma taça agora! Não vê que os sofás mudam de cor e os cigarros queimam e jamais serão os mesmos de antes. Mas por favor, me diga que tu ficas para sempre... Fique meu amor, fica meu amigo, fica meu cão de olhar triste, fica mãezinha querida, terna e lactante. Não vá embora, não deixe o samba morrer, ainda há mais carnavais para uma mulata sambar com a flor nos cabelos, e os cabelos ao vento têm um cheiro bom que só os vagabundos de alma podem sentir. Fique coração palpitante, há uma luz no fim do beco. há um pobre homem esperando com um sorriso triste a sua hora da estrela, não muito longe daqui..
E ela sentiu tudo isso no seu corpo e no seu espirito e ESTREMECEU. Quase chorou, mas tinha aquela sensação estranha de torpor. Não queria mais fingir que não conseguia ouvir agora o barulho do trem partindo, o cheiro que isso tem. O Tum Tum Tum que isso dá, das rodas do trem girando, do universo girando, das rosas, das rodas vivas e dos universos circulares. Ela, pobrezinha tão pequena entendeu Platão, Sófocles, Demétrio e o caralho a quatro, entendeu bem o que todos diziam: Oh estavamos todos entorpecidos pela existência e a hora era agora de compartilhar a existência juntos. Viver como loucos e viver DEMASIADAMENTE, sorrindo ou chorando, Viva La vida! E a felicidade não era só uma palavra que ela havia lido num conto infantil. Não, a felicidade era muito mais, era um gás entorpecente e colorido que se difundia rapidamente e sumia. Tinha cor de pôr-do-sol a felicidade! Ela queria tomar um pouco disso nas narinas bem agora e sorrir, ela sentiu tudo isso ao mesmo tempo e numa fração de segundos. E ela sentiu que não havia segundos para segundas para lamentações. O tempo fazia um ângulo perfeito e circular. Ela ouviu de repente os sinos e sabia que não havia mais volta. E ela tocou tão rapidamente os cabelos da morte que seu corpo inteiro se resfriou num arrepio. Mas oh pequena, meu amor, minha princesa, não tenha medo que eu te dou a mão, vamos nos abraçar agora, não há tempo. O tempo passou correndo por aqui, saltou a minha janela, tropeçou.Você viu? O tempo passou gritando e uivando e gotejando bem acima dos nossos olhos. O tempo chorou e agonizou bem agora nos nossos ouvidos exatmente enquanto ela fitava no livro de gravuras um homem sendo deixado para trás na estação de trem. Era um homem sem rosto. Ela sentiu na hora exata em que via,a meninha. Tão pequena e sentiu como a mala fedia e cheirava mal. O tempo contava 5 e poucos anos e ela sabia que seus alvéolos suspiravam desesperados por algo muito maior que o ar.Oh linguagem estrelar e criptogafada que tem o tempo. Todos nascemos a fim de nunca compreendê-la.
E por isso hoje ela conta. ela me contou aqui no meu ouvido agora. Ela me pediu em segredo e não quer que isso vá. Ela disse: força lua, força céu, força mar e força ventania. Não deixe o tempo chorar agora. Veja como ele dança suave nas suas mãos. Não permita que ele se recoste numa caixa de madeira qualquer. Ela disse me baixinho, força Beta, força Alfa, força Gama e força Epilson. A dança do céu não pode parar. Senta aqui e vamos falar da vida, das histórias que recordamos, me dá um trago, e um copo, e um lenço para essas lágrimas que insistem em cair,de alegria ou de dor.Conta-me! Vamos entender todas as coisas e vamos viver certos de que a dor e a ferida nos levam para frente! Vamos cantar aquela velha canção juntas. Sim, ela toca misteriosamente em todos os bares do mundo, por isso, vamos viver certos de que bem e mal são palavras que se confudem e que não interessa muito no que você acredita, sempre existem mil lados e o que importa mesmo é contar uma história. Conta que eu te conto, mas não deixe isso passar!
Ela então sentiu dor, a dor se saber que não havia nada por fazer a aquele homem vivo, sem rosto. Ela sentiu o espirito encolher e desejou um abraço forte e eterno naquele momento e uma voz que dissesse: Eu te amo, menina, não importa nada agora, nada importa. Chora essas tuas lágrimas presas meu amor, deita comigo na rede e chora. Me beija, vamos viver como os desesperados, rastejando pela adorável luz. Vamos! Há outras redes, há um canto azul logo ali.Vem amor, olha pra mim agora, no fundo dos meus olhos, meus olhos são de nuvens, lago e fumaça. Veja, pequena, há um sol esperando louco para gritar mais uma vez pro mundo o grito mudo: vivam porra! Vivam como se fosse a última vez. Vivam como se essa ferida fosse estranha, vivam como se o trem fosse passar aqui em cinco minutos. Vivam como se fosse fosse a última chamada, o ultimo beco com luz pendendo sobre a mesa!
E depois que aquilo acabou, ela fechou o livro de gravuras sobre o peito, e o coração dela estava quente, cheio de descobertas.
E o homem sem rosto ficou para trás, no meio da multidão sem rosto. Mas ela viu, ela se lembra, e era como olhar as estrelas que jamais serão as mesmas, dançando.porque as estrelas também dançam e choram e depois se vão eternas no conto de alguém que conta, e nada passa,tudo fica para sempre, só o tempo, o tempo descarado é que some na estação de trem, o tempo vira as costas e some, sem pena, sem rosto...
-A um beco eterno de estrelas: Beta, Gama, Alfa e Epilson, que sabem bem e no fundo quem elas são porquê disso tudo, e estão agora, exatamente sobre a linha do horizonte do meu ainda belo horizonte....
Fiquem!
" Que tristes os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas" - Quintana
beijos cósmicos
nika
