2.5.12

EROTISMO

A gente tem que festejar muito essa coisa de sermos livres hoje em dia. Não é novidade, mesmo para os ipsilons que no passado, a questão de liberdade sexual era uma questão discutida nos tribunais. Porém, as conquistas vieram e com aplausos concedidos à vanguarda dos anos 20, 30, 40 e por aí vai!
Eles transformaram a lenda em fatos! Ufa...
Convido vocês a passarem os olhos pelas obras de René Magritte e Georges Baitaille. Estes e outros tantos fizeram com que não nos sintamos estranhos no ninho ao dirigir o erotismo em conversas triviais.
O erotimo traz uma sensação de movimento, e literalmente faz um movimento de subida à cabeça, parte nobre do corpo humano, ligada à Deus. A parte de baixo, considerada a parte suja do corpo antigamente era ligada ao inferno. Que coisa mais antiquada! Um exemplo: a pintura de René Magritte, estética surrealista, de 1934, chamado Le Viol, no qual representa uma cabeça de mulher com duas tetas e uma vagina.
Ainda bem que nos libertaram e os conceitos mudaram. Não é preciso mais dividir as conversas  em seções temáticas com os amigos, pais e avós e naturalmente a questão leva a discussões históricas, mas não precisamos mais sair a lugares propícios para ir a procura de outros como uma sala de museu.
A nossa geração carrega a herança de libertação, portanto, vivamos a nossa época.
Misha





1.4.11

Mais eu

Neste momento eu estou morta. Uma obra inacabada como a vida. Nunca se sabe o que vem depois dela. Mas se espera que seja melhor. Não sei por que tantas teorias circundam o mundo. As pessoas abraçam teorias como se abraçassem gente. Muitas vezes não concordam com que elas transmitem. Como um abraço falso, vazio, inútil; mas preferem assim, pois desse modo ninguém nota ninguém. É impressionante como muita gente pensa que tem a perfeita noção do que é a felicidade, não a sua, a do outro. O que é pior. Num mundo assim, onde querem que o outro se anule, é o mesmo que convidar para um suicídio em massa. Não. Eu não quero ser como você. Convide outro pra viver o seu mundo, eu já tenho o meu.

Será que vou ter que viver uma justificativa após a outra até o fim da minha vida? Tudo gira em torno dos por quês. Estou cansada de perambular por eles. Não existem respostas pras suas perguntas. Existem fatos, nada mais. Por que preciso sempre ter uma frase pronta, sempre na espera de um afronto, uma negação ou juízo?! Parem de me olhar, deixem-me apenas viver. Estou certa, não me convidem para outra festa. Se carecerem de alguém para olhar, ainda existem os seus reflexos.

Misha

27.3.11

Clarissa

Existe uma história de que aos 27 anos de idade passamos por uma crise existencial.


Numa pesquisa feita na internet muitos artistas e famosos morreram aos 27. As causas são variáveis, mas a mais comum é a overdose. Talvez fazendo uma pesquisa para a idade 50 também ache múltiplas mortes de causas variáveis. Mas, a minha crise é dos 27 e é dela que vim falar.


É na crise dos vinte e sete que a gente para pra pensar em aspectos mais sórdidos e desagradáveis: "que diferença eu faço pro mundo? É na hora de mudar de emprego?"


Eu tenho tentado me impor como uma pessoa viva, que se movimenta com ritmo e luminosidade, assim como Clarissa, de Veríssimo - que escreveu o romance com 27 anos-.


A minha vida não é uma grande descoberta, não tenho 14 anos como Clarissa. Sou adulta, séria, exigente. Clarissa representa aquele mundo que já foi meu, ao qual desejo voltar, repetindo-o mais uma vez.


"Clarissa vai andando aérea, sem esforço, leve, como se tivesse asas. As abas do chapéu bamboleiam, moles, põem-lhe no rosto iluminado uma sombra mansa que lhe vai até o meio do nariz, dividindo-lhe o rosto em duas zonas distintas. Dentro da zona sombria os olhos fulgem. Dentro da zona luminosa os lábios ainda ficam mais encarnados. Clarissa não responde, não ouve, não atende. Anda longe, numa viagem maravilhosa.


Não adianta eu querer me impor à personagem, sou gente, de carne e osso.

Misha

26.3.11

Quando a memória dói



Faz tempo que não voltava ao beco. Recordar é viver. Quem vai me dizer que não?

Qual é o mistério dos átomos do pensamento e da lembrança, se enquanto eu lembro eu posso ver daqui de perto o Glíter nos olhos de pops, a doçura nos pés de Misha e o fogo dos cabelos de Polly . Se essa lembrança me ocorre sem mesmo que eu me force: o beco que outrora era um espaço real, agora é um espaço mítico, cheio de reminiscências com cheiro e cor. Amarelo mostarda, palha, e principalmente azul. Cheiro de brisa fresca e cor de entardecer. Amor no peito, gratuito e puro. água de chuva que goteja no meu antebraço, sereno caindo suave à noitinha, orvalho molhando as madrugadas, madeiras de janelas, meia luz da noite, cigarros de palha, pão de alho que era somente aquele, cervejas que eram somente aquelas e assuntos que eram aqueles. Quais eram? Eram todos! posso sorrir ao lembrar sem mesmo saber do real conteúdo. Posso sorrir apenas por sentir a carícia do tempo...

Sim. O beco é eterno. Tão eterno quanto o sertão de Guimarães que vive ali, passou e ainda é o mesmo: dentro da gente. de uma eternidade estranha, metonímica como a dor que desatinava sem doer de camões. É deste tipo de dor rara e suave a que estou me referindo. Dor de sentir aquilo que aperta no peito e que faz o relógio parar- dor da solidão de não ter por perto, de não poder voltar. Mas não essa dor tão nefasta, meus caros, afinal, a lembrança vive ali, irretocável e intacta e enquanto eu fecho os olhos, eu também posso ver...


E além disso tudo, foi um tempo de transição para mim. Mas aí são mangas para outros vestidos. rs

Cada uma seguiu o seu caminho. Quis evitar de pensar nisso enmquanto escrevia, mas preciso repetir isso e entender aquilo, que não é porque o rio fez a curva por detrás da colina que ele não vai ser mar. né?

E por falar em memória, as fotos do nosso último encontro se apagaram misteriosamente. O tempo é ou não é irônico?

Mas eu vim aqui para falar de amor... Amor por um tempo, por um beco e por 3 garotas. Aqui me aquieto e deixo que camões que entende de dor que não dói, fale por mim:


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como um acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento cono ideia;
O vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.




Dedicado a 4 garotas (incluindo a mim mesma) que ainda existem num beco eterno.



(Nica )

24.7.10

Eu escrevo


Eu escrevo.


Não escrevo pra você.
Não escrevo pra mim.
Não escrevo pra ele nem pra ela.
Nem pro senhor nem pra senhora.
Nem pro pequeno nem pro grande.
Nem pro feio nem pra bonita.


E não escrevo nem feio nem bonito.
Não escrevo nem bem nem mal.
Não escrevo nem isso nem aquilo.

Não escrevo pra você, não escrevo bem e não escrevo aquilo.


Eu escrevo.
Só escrevo.
.
.
.
.
.
POPS

28.6.10

E...


e hoje?!


nenhum novo trabalho.
nenhum novo confronto.
nenhum novo término.
nenhuma nova exigência.
nenhuma nova reclamação.
nenhum novo desejo.
nenhum novo encontro.
nenhuma nova ilusão.
nenhuma nova decepção.
nenhuma nova descoberta.
nenhuma nova viagem.
nenhum novo sentimento.
nenhuma nova novidade.
nenhum novo.
nenhuma nova.

e hoje?!

criar...
criar...
criar...

pra buscar a felicidade.
eu sou feliz!
felicidade plena, essa sim!

porque ontem eu já dominei o mundo...
.
.
POPS

26.3.10

Nosso mês


Meninas, mulheres e meninas-moças,

Nesse nosso mês, não vou oferecer à vocês um plano de saúde pra que você possa ir sem preocupação ao ginecologista, fazer o seu exame de mama, exame de útero, papa nicolau etc.

Nem vim oferecer um plano SPA, daqueles que por uma quantia fixa você vai ao salão fazer o que quiser no cabelo, nas unhas, massagens mil, drenagem linfática, ofurô com pétalas de rosa, hidromassagem... Vai sonhando... isso não existe.

Eu vim pra dizer parabéns! Pra vocês que são mulheres fortes, determinadas, decididas, guerreiras, companheiras, namoradas, esposas, mãe...

Eu vim dizer parabéns pra você que não é mera mulherzinha!!

Um beijo especial pras Marias Salinas! Algumas das mulheres da minha vida.

Misha

27.2.10

O período que precede o início


Dia 01 de março, segunda-feira próxima é meu aniversário. Essa não! Estou no meu inferno astral!

Sabe aquele período em que você não consegue fazer nada por você mesma, não tem concentração, faz uma retrospectiva do ano anterior e tudo fica invertido?

Atribuir todos os azares, angústia, frustação, raiva e mais sei lá o quê a esse inferno astral, seja talvez meu bode expiatório. Assim, fujo da responsabilidade.

Esse assunto gera polêmica até nos mais conceituados astrólogos filosóficos e estudiosos.

Quando o assunto é inferno astral, você pensa que tudo então é permitido? É. Porque se uma mulher com TPM pode não ser condenada a cadeia porque matou o marido, então no inferno astral muito menos!

Calma, gente, não é bem por aí!

Só tem um probleminha: somos donos de nosso destino e, como os astrólogos devidamente formados filosoficamente sempre dizem, não existe uma influência "benéfica" ou "maléfica" vinda de fora de nós mesmos. Nós fazemos as coisas acontecerem.


Misha

27.10.09

uma hipótese e nada mais...


ah, destino.
um conspirador.
e nunca se sabe se contra ou a favor.
prega em mim suas peças e um quebra-cabeça inteiro é formado por elas.

ah, amor.
um traiçoeiro.
perigo, daqueles certeiro!
faz graça e desgraça.
e há quem com ele se importe.
espertos são aqueles que acreditam na bendita sorte!

mas, oh, quanta coincidência!
se parecem.
se completam.
se merecem...

cumplicidade amedrontadora.
o destino tem um pacto com o amor...
.
pops :)

28.9.09

"It ain't me, babe"




não dizer a verdade e perder para sempre...
assumir sentimento e desperdiçar mais muitas oportunidades...
silencio, pra (res)guardar.
fingir, pra ver no que dá!




e se passar ?
não és o primeiro nem o único!








Pops


:)

12.7.09

9° dia


Você acorda e se depara com um lugar vazio. Aquela pessoa que você tanto ama, não mais está lá.

É impressionante o egoísmo que te toma. Você vai pensar em primeira instância: o que eu vou fazer sozinho agora? Como conseguirei levar minha vida sem esse alguém?

Você se percebe sem rumo, pois a parte que te definia foi embora.

O amor é egoísta, só faz pensar em você.

Agora você troca o tênis pelo chinelo sozinho. Come qualquer coisa o dia todo, todos os dias.
Agora você tem tempo livre demais.
Agora não são mais dois copos que se enchem.
Não são mais dois corpos juntos que se deitam.

O amor é egoísmo puro, inoculado de incompreensão. É a felicidade que o outro trouxe. É o que o outro não mais fará por você.

Num momento você é completo. No outro vai ver seu sofrimento rimado num papel.
Saí, fui me procurar.
.
By Misha




11.7.09

Reflita







Ei, você aí, tenho algo importante pra lhe dizer.
Reflita: você gosta de perder suas chaves? Obviamente não.
Você fica feliz ao perder um documento? Mas é claro que não, não é mesmo?
Culpa da falta de atenção, da distração, do ladrão, do furo no bolso da calça, do fecho estragado da mochila, do chaveiro que arrebentou.
Azar.Famosa lei de Murphy.
Você vítima.
Preocupada. Indignada. Revoltada.
Mas isso não é nada.

NADA.

Preocupante mesmo é perder alguém.
Você réu confesso.
O que é a raiva e a indignação perto de uma dor no coração?

.
by POPS




26.5.09

"Compro, tenho, logo existo."

Segundo a “teoria do valor-trabalho” descrita em “O CAPITAL”, pelo filósofo Karl Marx, toda e qualquer mercadoria é trocada em proporção ao tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção.

À época, Marx, um dos principais pensadores representantes do século XIX, defendia que o produto do trabalho deve, antes de tudo, responder a algumas necessidades humanas, ou seja, ser útil. Marx chamava-o de valor de uso.

Contrária a esta concepção, Adam Smith, defendia a teoria de que as mercadorias não apenas possuem seu valor de uso, mas também um valor de troca, o qual se assenta na importância atribuída a elas.

Na sociedade contemporânea, a qual estamos inseridos, parece haver um predomínio do segundo valor.

“Compro, logo existo”. Esta parece ser a condição essencial para a lei da sobrevivência. Usar uma calça de marca ou o tênis da moda virou sinônimo de identidade pessoal. O sujeito sente-se engrandecido, inserido na sociedade, fazendo parte de um mundo, onde as pessoas não querem apenas o necessário. Gostam de ostentar o supérfluo.

A publicidade veio ajudar o supérfluo a se impor como necessário. Fala-se de uma obsolescência planejada, segundo a qual, o processo de se tornar obsoleto de um produto é planejado desde a sua concepção, gerando no consumidor, a necessidade de se adquirir um novo produto.

Um produto cria a ilusória e errônea sensação de que, graças a ele, temos mais valor aos olhos alheios. A relação pessoa-mercadoria está invertida; mercadoria-pessoa é o que prevalece agora.

Estamos sendo monitorados pela lei da lógica do consumo. Não mais importa o Ser e sim o Ter. Ter um BMW, uma camisa ou um relógio de marca, é o que nos imprimem valor.

É sob tal condição, que Frei Betto, frade dominicano considerado um dos principais expoentes da Teologia da Libertação, critica a “religião do consumo”. Segundo o sacerdote, o consumismo é a doença da baixa auto-estima, e o pecado original dessa nova “religião” é que, é egoísta; não faz da vida um dom, mas posse.

A tese não carece de lógica. Apenas é uma questão de saber discernir o útil do não-útil e o necessário do não-necessário.

By Misha

12.5.09

O espelho me chamou e eu vi que não era eu "o que" ele refletia. Tentei lavar toda aquela sujeira imunda que eu tinha na cabeça. Tentei enxugar as minhas lágrimas, mas elas me banhavam e ao mesmo tempo não deixaram secar meu cabelo. O travesseiro conheceu o tom do meu choro e depois de cansada adormeci. Foi no dia seguinte, com uma frase ouvida que o sol conheceu meu choro. Desta vez o travesseiro o conheceu em tom mais alto. Depois de me confortar no toque do algoodão decidi me deleitar na xícara do café e no desenho que a fumaça do cigarro desenhava. Nada disso parecia sair de mim. Foi como uma manhã em alfa e saí de casa pra tentar me enxergar em outras pessoas. Mas, elas não me diziam nada, era um vazio só, sem alma. Perdi a noção do tempo e me perdi em mim mesma. Desnorteada pela pulsação acelerada e o cérebro maquinado perambulei sabendo onde iria chegar: a lugar nenhum. Viajei no tumulto das minhas idéias e balbuciei um choro. O dia parecia amanhecer ainda ou a noite não chegar. Comecei a me entreter com o mundo e vi que ele me reconhecia. Apelei e soltei minha voz. Apesar do esforço, ele foi mudo. Quis desnudar a minha pele nua. Encontrei meu erro. Esqueci o meu dia passado sem certos passos. Olhei no espelho e gostei do que vi.

Misha

6.5.09

Lua bonita


Mais uma noite e lá está ela. Linda. Leve. Clara. Digna. Reina absoluta entre outros milhares de suas mini-cópias. Musa inspiradora. Seus silenciosos conselhos têm essência do que há de melhor. E nem lhe peço...Não, não é necessário! Ela sabe. Sabe o que quero, o que penso, o que aspiro e o que respiro. Poderosa acompanhante. Insubstituível. Eu lhe falto, ela perdoa. Eu não a vejo, ela se mostra. Ela faz charme, se esconde. Ela pode. Sai da míngua e se renova. Cresce e aparece. Mais bela. Mais brilhante. Mais forte. Quem lhe fala é o meu amor. Solidão que nada. Estou pra você. Luz pra mim. Energia. Coragem e medo. Pode e impede. Cria e destrói. Acolhe e abandona. Ó poderosa dama de fases. És rainha. Inspiração. Mistério do universo. Perto e distante. Pena. "Deixa São Jorge no seu jubaio amontado e vem cá para o meu lado pra gente viver sem dor", palavras de Raul.
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by POPS
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15.4.09

Óculos

Tinha um cordão marrom e já parecia um artefato vivo, cheio de escamas que contavam minuciosas estórias. Movia-se na esfera atômica sob um céu de nuvens, látex, plástico, cobre ou qualquer que fosse aquela matéria estranha. Era triste, parecia póstumo, plural, aquele objeto morno, esquecido: óculos.

Contava histórias...Tantas histórias suportadas, sorrisos de cílios, dança de sobrancelhas, músculos faciais atentos, suspiros de estagnação e tédio, sol vigorante, e chuva fina de cidade grande, seres móveis, pensantes, bocas sonâmbulas, ósculos apaixonados. Ah, tudo estava contido ali, naqueles óculos morenos de ferrugem.

Objeto vivo, pensante (como saberemos?). Os óculos não falam, são nobres porque sabem guardar segredos, passado, presente e lentes que verão o futuro. Guardavam o mundo refletido em seus espelhos, eram tristes e atados a um cordão de látex coagulado. O cordão era vagabundo, mas os óculos eram sábios... Pareciam árvores do cerrado, eram óculos morenos, para olhos morenos e doíam.

Que mistério guardariam as lentes daqueles óculos, noivos de tantos globos oculares, plasmas e íris pusilânimes que acarinhavam as almas! Córneas úmidas, fluviais, plúmbeas, frágeis de sensações. Os olhos se fecham e as lentes continuam a tudo observar. Lentes e olhos são oráculos, bem sabem que o ser que vive gosta mesmo é da luz parindo no escuro de tudo (para aclarar o breu das almas?). E como era forte o segredo da luz!

Aqueles óculos sabiam as respostas. Aquilo que somos humanos demais para entendermos eles sabiam mudos. As lentes ouviram o destino infeliz de uma Eva inútil, e viram as rodas que esmagaram o verme-estrela em sua hora. Os óculos teriam visto vênus, serpentes, formigas, poros grossos, poeiras, poetas, construções cinzentas, sóis, céus e estrelas. Teriam guiado cavaleiros e suas malas, guerras e suas ideologias furadas, cirandas, faces da roleta viva onde giram mil caras. Aqueles óculos ouviram atentos na taverna, os risos e promessas das bruxas bêbadas e o caderno marrom, apoiado no cimento frio, as lentes conspiraram sobre amor perdido (ou amor achado?) e depois vislumbram taciturnos o mais maldito dos poetas morrendo por tédio da vida, ou por loucura, e a flor de Liz com seu cigarro que queimou para sempre nos olhos que se fecharam para a luz... e depois claricearam todas as coisas.

Os óculos viram Dean e Sal aflitas, embucetadas no pátio dos vagabundos a se perguntarem sobre o passado de uns óculos achados (ou perdidos?)

...e viram a dor líquida da menina que não sabia chorar de alegria...










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À Jana.

31.3.09

Apenas Mais Um Causo do Sertão

Dona Marinha foi espiar a janela com aqueles peitos que eram os maiores do mundo. Queria era contar causo de defunto. época de quaresma não era bom pra isso, bastava a noite vir bisbilhotar o telhado que um medo de nãoseioquê invadia a casa. Ainda mais agora que a casa tava cheia de moças com os hormônios borbulhando e rapazes, todos ruins para casar. Para a neta, ela fazia gosto de um apenas, o bizneto de Seu Canote, lá do chapadão. Seu pai era rapaz bom e entendia de roça, foi criado perto da nascente e desde criança era levado. Mas menino pra ficar bom tem mesmo que ser ativo e curioso sobre tudo. Aquele era! Danava a procurar gias na nascente, vivia se gabando que já tinha pegado mais de 60.Comadre Josefrina é que ralhava. Cheia de supertição aquela velha, gostava de dar palpite em tudo. Deus o livre! Um dia desceu o chapadão numa mula velha só para reclamar com Seu Canote, um velho de pele vermelha grossa e barba farta. Foi lá resmungar que tirar gia da nascente ia acabar secando a água. Seu Canote se riu naquela risada rouca: Hihihi, deixa o menino máde Zefrina, essa terra tem água por demais! Dona zefrina montou a mula velha e foi se embora, retada e praguejando. E não é que depois depois do estio as terras nunca mais ficaram boas? A água foi raleando. Mas a fazenda de seu Canote cresceu, só deus sabe como. Dizem que a tal de tecnologia é que deu jeito. Comadre Zefrina ficou viúva pouco tempo depois, plantava maxixe, milho e abóbora cascuda. Tudo pegou doença e morreu. Ficou na miséria, suas duas moças foram embora para a cidade e nunca mais deram notícia. Dizem que ficou pinel depois, virou bruxa, feiticeira, com os cabelos brancos dando pela cintura. E depois morreu sozinha e secou dentro de casa, nem funeral teve.A casinha está ainda lá em riba da serra. Ninguém foi lá, mas também a velha não deu sossego. Na lua cheia a meninada e até gente grande ficava alerta. Era ouvir coachar de gia e barulho de mula manca, podia saber! Morria menino e gente grande, morria velho ou quem quer que estivesse na reta da bruxa amargurada!
.
E naquela noite Dona Marinha se recordou e contou todos esses casos na sala, depois da janta.Veio com isso na cabeça no caminho da missa de quaresma, andando a passos largos com suas pernocas gordas pela praça da igreja.Todo mundo cumprimentava e queria saber como andava o povo da cidade. Ela contava vantagem que estava feliz demais com a visita dos netos,mas a verdade é que estava doida pra semana santa passar logo. Veio rezando o terço, rodando as bolotas de cera e pensando num plano diabólico; Queria fazer medo. Era de levadice de velha mesmo! Lembrava daquelas noites em que dormia suando gelo debaixo da coberta com os irmãos por causa dos casos de Seu tinoco e Comadre Zefrina. Onde já se viu! essas moças de cidade não sabem nem matar frango! Quando vêem os olhinhos pidões agonizar já correm. Até demora mais de morrer o bichinho.,fica agonizando por causa do coração piedoso das moças; Piedoso nada! Lamuriava em pensamentos a Dona Marina enquanto limpava a cloaca defunta e fria do frango recém esguelado, frescura mesmo! Esse povo de cidade quer achar tudo pronto.

Dona Marinha estava inquieta e tinha um nó nas tripas, andava da cozinha para a sala, atravessava o corredor e sentia uma estranheza na sua própria casa. Enxergava os rapazes feito bonecas de porcelana sentadinhas no sofá com seus olhos inertes. Não brilhavam os olhos quando viam terra, nem vaca parida, nem bezerro mamando, nem pé de fruta crescendo nem nada. Gostavam mesmo era do tal do computador. O que será que haveria de ter de tão bom naquela caixinha brilhante e barulhenta? Coisa boa é que não era! Rapaz bacana de casar era mesmo o Bizneto de Seu Canote. Tinha ido estudar veterinária na cidade e andava com chapelão que capengava, lembrava até o finado Tinheiro quando era vivo. Bonito e viçoso que só! Ela disse às netas, vocês precisam de conhecer o Luizinho! Mas que nada. Ninguém dava ouvidos à velha. Ela se sentia uma relíquia daqueles matos, guardando estórias e passado que nunca se iam. Desde que Tinheiro havia batido as botas ela tinha se tornado sozinha, naquela casa, falando com visinhas e com os telhados, chorando de saudades dos tempos antigos, namoro de mão, vestido de renda, respeito com os mais velhos, cortejo e benção. Era tomada de um dor no peito quando pensava que aquilo tudo, o barulho bom dos bichos tilintrando na noite havia mesmo passado e ela... Ah ela era uma velha e todos aguardavam para que morresse já que ela não cabia no mais nesse mundo cheio de metais e coisas que se resolvem sozinhas . Dona marina estava triste por dentro e não sabia parar ou dizer, com aquela a casa pinhada de visitas, o jeito mesmo era continuar ralando a mandioca com a força dos braços, suando no baforão do fogão à lenha, porque a noite chega e há de se comer!

Após o jantar todos se aquietaram na sala, foi quando Dona Marinha começou então a contar aquele causo, vagarosamente, detalhe por detalhe, até disse que mostrava a casa de comadre Zefrina. Todos ouviram embasbacados e alguém até tentou fazer piadinhas a respeito. Mas as noites de quaresma e lua cheia naquelas bandas não falhavam. Deu a hora de dormir e moçoilada toda já caçou jeito de dividir cama, os rapazes já não queriam ir ao banheiro sozinhos. O tempo inteiro alguém se estremecia pensando ter ouvido barulho de mula manca, canto de gia na nascente. E todos, por uma noite que fosse, mergulharam no sertão que não saia nunca de Dona Marinha.

E naquela noite Dona Marinha dormiu profunda e serena, com a sensação de dever cumprido. Sonhou com o canto dos matos, sonhou com as sereias velhas dos rios, segurou os cabelos cinzas de comadre Zefrina, viu os anjos dançando todos nuinhos dentro das núvens. Ouviu o barulho do cachorrinho pintado que alegrava a sua infância, deu-lhe as mãos e atravessou o rio, as florestas, e os campos de algodão do cerrado. Saltitou por entre os verdes matagais que perfumavam as noites reluzidas de cristais que a enfeitavam de saudades . Depois sentiu o corpo molhando debaixo do orvalho sereno que devia ser as lágrimas da virgem Maria e estava tão feliz, que uma escuridão a invadiu por completo.

E naquela noite em que todos provaram dos mistérios do passado de dona marinha, é que ela suspirou. e nunca mais acordou

e enfim viveu para sempre nas noites do sertão...





-Para Dona Marilda, a contadora de causos!


(nika, sertaneja, louca e beat ;*)

25.3.09

Eros, dores e Isadorias



Ela chegou pisando a pés descalços a camursa anil macia, tinha os cabelos ruivos soltos num maleixo sensual raro, os lábios especialmente róseos, entreabertos e o corpo nu.A casa era estranha, silenciosa e desconhecida. Como eles teriam ido parar ali? Tudo era vago e não objetivo, como num sonho. Se era tarde, ou noite, eles não sabiam porque as janelas estavam cerradas. Ela era setentrional ou boreal ele não sabia, porque naqueles dias nada mais fazia sentido a não ser a vontade. Antes tudo era verborragia, raciocinio, mentira e palavreado, e agora que estavam nus, todos esses acessórios já não se recombinavam a fim de produzierem nenhum tipo de ordem lexical.
Ele a fitava de longe, em sua nudez pálida e já não procurava entendê-la. porque a verdade dela era uma asa de borboleta furta-cor, mudando a cada segundo. Ela por sua vez, já não tentava satisfazê-lo porque nos olhos dele havia uma sombra, que se aconchegava mais facilmente ao palácio da angústia. Havia naquele homem um prazer na insatisfação, um gozo em ser movido a dúvidas, e aquela mulher era puro mistério de bruxas, fantásmas, mares, ventanias, entidades e terreiros. Eles se imantavam num tropismo louco pelo sombrio, pelas coisas tristes e ocultas. e assim, nus, é que eles se sabiam por completo.

Ele engoliu-a com os olhos algumas vezes, tinha um cigarro na mão direita e um esquerdo pensamento: maldita! Ela se gracejava nua, se movia, e quase dançava em distraídos apelos femininos. Ele fitava ereto e praguejava numa prece aos avessos, num ritual de excitação a que ele se submetia. Maldita! Ela percebia tudo por detrás das pupilas cautas e sorria, movendo alguns poucos músculos da boca farta , invocava-o com os cílios e o possuia com seu olhar bruxo, e como era bruxo, bacante e malicioso e puro, sem querer. Porque eles sabiam bem que não há nada tão puro quanto um desejo selvagem cilindrando-se como uma gota de orvalho, aviltando-se perene, segundo após segundo, milimetricamente, para enfim explodir no ar.

Ele pousou os dedos naquela boca úmida de pintanga, e o seu sorriso mudava-se como um mosaico sensual de escamas de serpente. Ela molhou-lhe o dedo médio na saliva quente e fitava-lhe estranhamente os olhos enquanto cobria com a língua de rio, o dedo de terra e ferrugem daquele homem. Maldita! ele murmurava por dentro enquanto era tomado por uma fúria de macho que lhe agitava os músculos todos. Ele tomou-a forte pelos cabelos e engoliu os seus seios cáusticos no chão camúrseo do quarto frio. Ela se atrelava e se esforçava, mas deixava escapar uns soluços de de gozo contrito. E então ele possuiu aquela mulher que era toda uma ventania vindo de alguma núvem impetuosa, e ela conduzia atrevida, cavalgando a floresta mística e úmida dos corpos, oferecendo a sua noite triste de mulher para ser penetrada com força, por um cavaleiro tétrico em sua armadura de desejo.

A tempestade prosseguiu aos raios, relâmpagos e ventos impetuosos e sórdidos, atiçando a cavalaria dos espíritos, arrebatando tudo o que está passível de fazer sentido num ciclone não arrebatável, naquele quarto escuro, esconderijo das mentes sombrias e eles, suados e cúmplices e passivos do crime dos que se amam, gozaram com a cor sanguínea de todos os túmulos nos olhos

e depois que a claridade fúnebre do prazer invadiu o quarto eles estavam vivos de novo... homem e mulher.


(para Isa- que bem entende de amor, porque o amor é não entender)

16.3.09

Mas ainda é março


Eu sei, ainda é março!
Águas que rolam e bossas novas à parte, hoje minha homenagem é ao fogo de abril. Aliás, acho o outono a estação mais linda, romântica e vibrante. Outono é uma estação para quem ama um banco no meio do nada e um pouco de melancolia pra fazer a gente gostar dos fragmentos de lembranças. E é mágico como tudo acontece quando o verão se vai e o peito fica quieto.. O que será de nós em abril?
Um soneto e um cigarro, um casal de velhinhos sorri um sorriso doce e decente para quem ainda tem muito o que descobrir, e o vento, malandro e bonito como é, sai empurrando as folhas, recolhendo os planos secos e fatigados e o amarelo sol que se põe a incinerar em chama ardente tudo o que já devia ter passado até que o inverno chegue em dó maior e depois também adormeça no planeta que gira em torno de um astro amarelo e outonal. E na vida, tudo é mesmo circular, as estações, as paixões, os desejos. Tudo volta exatamente para os braços de onde nasceu. até as folhas um dia adormecem de novo aconchegadas ao seio misterioso da natureza.
Mas no peito uma pergunta ainda suspirava baixinho: o que será de nós em abril?
Na primavera é que as flores se abrem e fica um perfume e uma saudade. Pura saudade de abril. Na minha vida sempre foi assim, esse mês cerceando o limite onde nasce alguma nova e avassaladora paixão.
Mas a coisa toda começou antes mesmo da aurora de ontem, quando eu tentava dormir com essa minha mente que mais parece uma indústria de pensamentos sofisticados, vendidos a preço barato. O sol já queria se levantar e eu não conseguia sequer fechar os olhos! Não tinha porquês aquilo tudo, meu coração palpitava e as pupilas irrequietas rastejavam por um pouco de luz ou beleza em plena madrugada. E eu acabei sonhando sonhos de outros amantes, estive em outros corpos sentindo estranhos perfumes. Seriam essas as grutas outonais dos sonhos?
Não sei... sei que ontem eu quis ser mulher de novo, ser vermelha nos olhos, na boca, quis ser segurada firme por grossas mãos. Onde moram essas mãos além da luz rubra que penetra a paisagem amarela dos meus sonhos?
Ah como eu queria ser sensível de novo, ser pequena, ser bailarina e ser amada...
Por isso hoje fica aqui hoje um poema, um tango e um sopro do vento e neles o desejo de uma grande paixão. quem sabe os anjos dessa vez sintam piedade e recolham essa prece. Quem sabe eles enfim esqueçam meus pecados, esqueçam que amei demais sem ter musa nem amado!

quem sabe tudo mude no fogo transparente que dá na gente
no mês de abril!



acho digno!

(niks)

abril


Oh amor de noite castelhana

Do teu corpo no meu seio

Teus olhos no meu beijo

E os pés rasgando circunspectos

O chão lânguido de Habanera


E no céu a lua de penosos acasos

Gemia compassos de dois por quatro

E já cavalgavam mil cavalos

No íntimo de quem me queira


As mãos pousando a boca branda

E a boca mordendo árduos os receios

E os receios engolindo líquidos olhos

E os olhos sorvendo pérfidos desejos






E seguiu-se o baile do coração assassino

Piruetando sob o acaso desatino

Que já na amargura se reclina

Mas na candura se devaneia


Na lua espanhola a violeteira fina

Girou as mãos delgadas do fado

Recuou sôfrega , inclinou-se trépida

Se lançou cega e pouco mais partiu


Mas quando no peito se instalou o alvoroço

As mãos de março ganharam o meu pescoço

Meu regaço mole alcançou teu rosto

E o compasso de novo se abril